CRISE NA AGRICULTURA IRRIGADA, UMA OPORTUNIDADE!

A crise que atingiu a fruticultura irrigada no Vale do São Francisco caminhou para uma trégua, a partir da linha emergencial de crédito e de outras medidas anunciadas pelo governo. Só uma trégua mesmo, já que o verdadeiro ponto de estrangulamento do segmento está mais ligado às questões de mercado e de custos fixos de produção. O potencial econômico da agricultura irrigada é muito grande e sua relevância social representada pela geração quase 200 mil empregos permanentes é tremenda para ficar quase que totalmente dependente de apenas dois produtos e de um mercado externo. Nesse contexto, dois eixos de ação se afiguram como estratégicos para contribuir no amortecimento dos efeitos de futuras crises mundiais e consolidar sua posição no mercado mundial de alimentos: a diversificação e a agroindustrialização.

A diversificação é uma tecla que já vem sendo batida há muito tempo. Quanto maior a diversificação dos sistemas, mais fácil será a preservação dos recursos físicos e bióticos do ecossistema. Ela reduz a vulnerabilidade da atividade aos riscos climático e de mercado dando maior tranquilidade ao produtor. O exemplo foi claro. A situação só não esteve mais grave porque os cultivos de banana, acerola, goiaba e coco, principalmente, “sustentaram o barco”.

São produtos voltados para o mercado interno o que revela a grande dimensão que esse canal de comercialização pode representar se bem trabalhado. A região não é só agricultura irrigada. A caprino-ovinocultura representa um rebanho de 3,5 milhões de cabeças, dando ocupação a quase 400 mil pessoas e movimentando um valor estimado em mais de R$ 75 milhões. Por que isso, até hoje, ainda não foi levado a sério? A caprinocultura de leite avança também com dois laticínios em vias de iniciar suas operações na região. Uma variante nessa atividade seria a produção de queijos finos de cabras associando-os comercialmente, via agroturismo, aos 8 milhões de litros de vinho que a região está produzindo.

A engorda confinada de cordeiros produzidos nas áreas de sequeiro é outra alternativa para os perímetros irrigados que ganha viabilidade a cada dia,
em função do enorme mercado que se consolida para o produto, particularmente na região Sudeste. Uma forma menos convencional de diversificação seria a consorciação da fruteira com a criação de ovinos, com resultados muito bons em pomares de manga e de coco, principalmente. A técnica, válida para o mercado nacional, permite reduzir em 4 a 8% os custos de produção da mangueira e produzir uma renda adicional decorrente da engorda dos ovinos. A apicultura seria outra alternativa de grande potencial, não apenas pela geração de renda com produtos de forte demanda no mercado externo, mas, também, pelo incremento da produtividade das fruteiras, decorrente do uso dos enxames para polinização. O segundo eixo, a agroindustrialização, ainda é ainda muito incipiente no contexto geral da agricultura irrigada do Vale, desconsiderando a frustrada experiência com o tomate.

Alguns exemplos de sua importância são os casos da Agrovale, da indústria vinícola e da Amacoco, todos bem menos ou pouco afetados pela crise. As vantagens potenciais da agroindustrialização são bastante evidentes: redução nos problemas de perecibilidade do produto, nas perdas pós-colheita e na estacionalidade da oferta e elevação do valor agregado dos produtos, sem esquecer ainda a possibilidade de enriquecimento do seu valor nutritivo e da modificação das suas características organolépticas. O resultado de tudo isso, além da geração de novos postos de trabalho, é a melhora da capacidade de negociação, dando ao produtor um maior poder de barganha no mercado.

Não obstante, não se conhece um único programa governamental com estímulos específicos para indústrias rurais de médio e pequeno portes. Os perímetros irrigados têm condições de abrigar dezenas de pequenas e médias indústrias de sucos, geléias, doces, produtos desidratados, queijos, carnes, produtos apícolas, etc. É isso que a Niagro já faz, transformando em polpa e em concentrado a acerola produzida por 135 pequenos produtores de Petrolina. A integração das atividades exercidas nas áreas irrigadas e de sequeiro representa um formidável potencial de benefícios econômicos e sociais ainda hoje ausente ou subvalorizado nos projetos públicos e privados direcionados para o Vale. A fórmula para enfrentar a crise já é conhecida e contempla vários caminhos.

Os resultados demandam tempo para se saber do acerto ou não do caminho escolhido. A escolha, contudo, tem de ser feita já.  Não é hora para titubeios. Pode ser que não haja uma segunda oportunidade.
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Clovis Guimarães Filho, ex-pesquisador da Embrapa Semiárido, consultor em Agronegócio da Caprino-Ovinocultura (clovisgf@uol.com.br); Pedro Carlos Gama da Silva, pesquisador da Embrapa Semiárido (pgama@cpatsa.embrapa.br)