Condomínio de terminação de cordeiros e cabritos em confinamento

                                                                                                   Clovis Guimarães Filho

A exemplo do condomínio leiteiro e ainda mais simples que ele, o condomínio de terminação em confinamento é um método gerencial de exploração conjunta de atividades de produção e de transformação inicialmente utilizado na bovinocultura leiteira européia. Começa a ser utilizado experimentalmente na caprinocultura leiteira do Nordeste, como forma de aumentar a eficiência bio-econômica da atividade. Os condomínios da ACCOJUS, em Jussara-BA e da Associação Aprisco do Vale, em Santa Maria da Boa Vista-PE, são os mais conhecidos.
O modelo é também aplicável a sistemas de confinamento de caprinos e de ovinos. Seu grande impacto residiria na expressiva redução de custos que pode ser obtida no produto final. Sinteticamente, um condomínio de terminação de cordeiros e cabritos consiste em uma central de engorda confinada, onde cordeiros e cabritos desmamados (e matrizes descartadas), de distintos produtores são alojados e explorados conjuntamente durante todo o período de acabamento, em média de 60 a 70 dias.
A gestão do condomínio pode ser de um grupo informal de produtores, de uma associação ou cooperativa ou de qualquer dessas formas em parceria com o próprio frigorífico que vai comprar e/ou processar o produto. Em outras palavras, o produtor condômino entrega seus animais ao condomínio que os engorda, de acordo com as recomendações técnicas específicas para que o padrão de mercado seja atingido, e os repassa diretamente para o abatedouro-frigorífico onde é abatido e, em seguida, beneficiado (submetido a cortes especiais e armazenado em câmara frigorífica). Cada condômino proprietário de um grupo de animais pode acompanhar os dados computadorizados de toda a evolução ponderal de cada um de seus animais e os custos de “diárias” associados a essa evolução. Os custos dessa “hospedagem” são calculados com base no consumo diário de ração (variável em função do potencial produtivo individual) e em outros tratos dispensados a cada animal.
É necessário avaliar, para cada condomínio, qual a quantidade mínima anual de cordeiros e cabritos e os ganhos ponderais mínimos que viabilizam o empreendimento. Além da redução dos custos unitários de produção, a instituição do modelo permite a obtenção de outras vantagens já oferecidas pelas engordas em confinamento, como a melhoria na qualidade da carne em termos de maciez e suculência, a melhor padronização do produto para o mercado, em termos de idade/peso, condição corporal e conformação/grau de terminação da carcaça e a viabilização de escala para comercialização de um esterco de melhor qualidade.
Para os caprino-ovinocultores, individualmente, as principais vantagens compreenderiam:

  • Maior disponibilidade de tempo para se dedicar a outras tarefas da propriedade, já que, como “matrizeiros”, estariam dispensados da tarefa de recriar e engordar os animais;
  • Pelo mesmo motivo, maior disponibilidade de pastos para incremento do rebanho de cria ou de áreas para cultivo em suas propriedades;
  • Eliminação dos custos com construção e manutenção de instalações de engorda e equipamentos associados;
  • Garantia de acabamento de seus animais dentro de padrões desempenho zootécnico e econômico compatíveis com as exigências do mercado.

Confinamentos em condomínios de terminação poderiam ainda servir de “pulmões verdes”, áreas irrigadas de produção intensiva e conservação de volumosos, operada comunitariamente, que asseguram a redução ou eliminação de qualquer vulnerabilidade climática do sistema, assegurando oferta de forragem de boa qualidade nos períodos normalmente secos e nas estiagens prolongadas.  O “pulmão verde” produz principalmente silagem de milho e/ou silagem ou feno de outras espécies de alta produção de massa por unidade de área (capim elefante, sorgo, leucena, etc.).
Há, contudo, alguns pontos a ponderar, antes de decidir implantar um condomínio de terminação ou de produção de leite, considerando que a incipiência das experiências de condomínios já em andamento na região, não permitiu ainda a formação e disponibilização de referências técnicas e econômicos em escala suficiente para uma melhor avaliação. O principal deles é, sem dúvidas, o investimento necessário para que o condomínio se estruture para prestar todos os serviços mencionados com a qualidade que se deve exigir.
O confinamento, embora de instalações simples e rústicas, pode demandar, em função do seu porte, recursos relativamente significativos para implantá-lo e equipá-lo, sem falar na questão terra. Ele exige a formação de áreas de produção intensiva de volumosos de alta qualidade sob irrigação, o que implica inversão de recursos substanciais, tanto para sua implantação quanto para sua operacionalização. O ponto mais crítico, contudo, seria, para os condomínios de maior porte, a manutenção de uma equipe mínima de apoio técnico profissional ao condomínio, incluindo, pelo menos, a supervisão periódica de um veterinário ou zootecnista e um técnico agrícola em tempo integral, tratadores qualificados, bem como de uma estrutura informatizada necessária ao monitoramento e sistematização dos registros zootécnicos e econômicos para disponibilização ao produtor.
Outra questão diz respeito ao arranjo organizacional.  Impõe-se uma forte articulação entre os distintos atores da cadeia produtiva, no sentido de identificar a forma de arranjo organizacional capaz de assegurar o melhor custo-benefício para o complexo produção-processamento-distribuição da carne. Organizações débeis de caprino-ovinocultores dificilmente levariam a bom termo empreendimentos dessa natureza sem a contrapartida da parceria com um abatedouro-frigorífico relativamente consolidado em termos de mercado.