Cresce a criação de cabras no Brasil é impulsionada pelo aumento da demanda interna por leite e derivados

Luciana Franco

Há registros mostrando que elas existem no Brasil desde 1560. Por serem menores e mais dóceis, foram trazidas em navios no lugar das vacas para garantir o suprimento de leite das tripulações vindas de Portugal. Pequenas, produtivas e resistentes, as cabras são velhas conhecidas dos brasileiros. Apesar disso, levaram 450 anos para saltar da condição de animal de subsistência para o status de espécie comercialmente rentável. Ainda que no Nordeste do país existam raças mestiças extremamente rústicas, criadas há décadas soltas a pasto, foi somente no final dos anos 90 que o rebanho brasileiro ganhou alguma representatividade comercial.

E o criador e empresário Paulo Cordeiro teve grande participação na criação desse segmento, que hoje desponta como um mercado com grande potencial de exploração. Criador desde 1987, Cordeiro resolveu, em 1995, iniciar a industrialização de leite de cabra. "No começo, tivemos de importar leite em pó dos Estados Unidos e da Holanda, pois nessa época quase não havia oferta disponível internamente. Mas, em 2007, as compras externas foram integralmente substituídas pelo produto brasileiro", conta o proprietário da CCA Laticínios, que produz a marca Caprilat.

A substituição da matéria-prima importada pela nacional refletiu basicamente o aumento da produção leiteira na Zona da Mata de Minas Gerais. Nessa região, existia um núcleo de produtores que se organizou numa associação, a Caprima - Associação dos Criadores de Cabras Leiteiras da Zona da Mata de Minas Gerais. Foi por meio da Caprima que eles começaram a fornecer leite para a CCA. Hoje, a associação conta com 40 integrantes, que produzem individualmente uma média de 200 litros por dia.

"O crescimento desse segmento tem sido tão expressivo que, em 2008, nossa captação somou 1,7 milhão de litros, em comparação com os 60 mil quilos de leite em pó importados em 1987, nosso primeiro ano de industrialização", diz Cordeiro. Desse volume, 60% é destinado à produção de leite em pó e 40% à produção de leite integral e desnatado. No Brasil, a massificação do consumo do leite de cabra se deu sustentada pelo uso terapêutico na alimentação infantil sob a forma do produto em pó. "Dados da ONU - Organização das Nações Unidas mostram que entre 3% e 5% das crianças do mundo apresentam intolerância ao leite bovino", conta Cordeiro. E o leite de cabra é um excelente substituto para indivíduos com tal intolerância.

Após desbravarem o mercado interno com a venda de leite, as empresas que atuam no segmento agora centram forças na elaboração de novos produtos. Há um ano, a CCA criou uma linha de queijos e está produzindo três tipos: o grancaprino, similar aos queijos ementhal e maasdam, vendido em peças de 12 quilos; o caprino serrano, similar ao gouda, produzido em peça de 3 quilos; e o caprino esférico, similar ao queijo bola, com 2 quilos. "O mercado passa por uma transição do viés terapêutico para o gastronômico e a tendência é que as empresas invistam na produção de queijos, iogurtes e coalhadas", diz Cordeiro. Segundo ele, nos grandes produtores e consumidores de leite e derivados de cabra do mundo, a exemplo de França e Espanha, o mercado se desenvolveu da mesma maneira: primeiro o leite, depois os derivados. E é também apostando nessa tendência que outras duas pequenas empresas estão ampliando suas instalações com vistas à produção de queijos e iogurtes: a Queijaria Escola de Nova Friburgo e a Capril Geneve, ambas do Rio de Janeiro...

A matéria completa está na Edição de Dezembro da Revista Globo Rural