Pesquisa isola pela primeira vez bactéria da leptospira em caprinos

Por Vilma Homero - 14/12/2006
A pesquisa está formando veterinários especializados, já que a criação de ovinos e caprinos está em expansão no estado
Pela primeira vez no país, a bactéria Leptospira foi isolada em amostras de urina de caprinos. Pelos testes, que além do cultivo contaram com diagnóstico molecular por PCR, foi possível identificar dois tipos diferentes da bactéria. A pesquisa, a cargo do professor Walter Lilenbaum, da Universidade Federal Fluminense, está sendo desenvolvida em cooperação com o Departamento de Medicina Veterinária Preventiva, da Universidade de São Paulo, e é um passo fundamental não apenas para se compreender a evolução da leptospirose animal, como também para o sucesso das estratégias de controle da enfermidade nestas espécies. Resultado particularmente importante quando a criação de ovinos e caprinos têm se mostrado uma atividade em expansão no estado.

"Este é o primeiro isolamento destes microrganismos em caprinos no Brasil e sem dúvida configura uma importante vitória", diz o pesquisador. Foi graças a uma bolsa de pós-doutorado da FAPERJ que Lilenbaum conseguiu levar adiante sua pesquisa, através de intercâmbio com a USP. Como se trata de um estudo considerado importante para a UFF (Estudo sorológico, bacteriológico e molecular da leptospirose em ovinos e caprinos do estado do Rio de Janeiro), e a universidade que possui equipamentos mais avançados e experiência em biologia molecular para proceder a esse tipo de teste - isolamento e diagnóstico molecular por PCR (estudo de DNA) - é a USP, é lá que são processadas as amostras coletadas no Rio.

Os exames são feitos a partir de amostras de urina, sêmen ou secreção vaginal do animal, na qual se consegue evidenciar a presença de DNA de Leptospira. Já foram isolados dois tipos desta bactéria. A questão agora é saber se existem outros e identificá-los à medida que a pesquisa avançar. "Como só conseguimos fazer isso até certo ponto, o material já isolado está seguindo para a França para uma identificação completa no Instituto Pasteur", anima-se o pesquisador.

Os resultados agora obtidos dão, na verdade, prosseguimento aos estudos que há cerca de dois anos Lilenbaum e sua equipe vêm desenvolvendo. Numa primeira fase, eles procederam a um amplo mapeamento dos rebanhos caprino e ovino do estado do Rio de Janeiro, através de estudos sorológicos. "Uma de nossos objetivos é avaliar quais os fatores de risco para a leptospirose", explica. Para isso, foram colhidas amostras de sangue de animais de 15 municípios fluminenses.

A pesquisa que isolou dois tipos de leptospira na urina de caprinos vai contribuir para entender a evolução da enfermidade nos animaisLilenbaum pôde constatar que alguns fatores ambientais, como áreas de pasto alagadiças, e de manejo influem na ocorrência da doença. "Mas também vimos que a criação de caprinos e ovinos não exige investimentos vultosos, nem sofre influências determinantes do clima; requer apenas cuidados com a higiene e supervisão veterinária constante para garantir uma assistência global à saúde dos animais", explica.

Ao contrário do que acontece com o homem, o animal infectado transmite a doença a outro animal de seu rebanho. Existem dois tipos de leptospirose. A primeira delas é

por amostra adaptada, ou seja, de um tipo diferente para cada espécie animal, sejam ovelhas, bois ou cavalos. A outra é por amostra acidental, que ocorre quando o animal é infectado no ambiente por uma bactéria que não é a da sua espécie. Nesses casos, embora o animal adoeça, ele não transmite a enfermidade para os outros do rebanho.

Depois desse primeiro mapeamento, houve uma seleção dos rebanhos que sorologicamente se mostraram reativos. Foi neles que o pesquisador se concentrou nas tentativas de isolar a bactéria. "A sorologia nos aponta evidências, mas somente o isolamento nos daria provas irrefutáveis da presença da bactéria no animal. E, mais do que isso, nos permitirá saber que tipos de Leptospira são mais presentes nas amostras dos rebanhos fluminenses", diz Lilenbaum.

Como os testes sorológicos são feitos com amostras internacionais, não é possível distinguir se há variações locais da bactéria, nem saber se elas são predominantes nos rebanhos de uma determinada região. "Não sabemos, por exemplo, se a Leptospira brasileira é igual às estrangeiras e se isso poderia modificar os resultados da sorologia. Quando, ao contrário, sabemos quais amostras ocorrem num dado local, conseguimos melhorar tanto os testes diagnósticos quanto as medidas de controle para evitar a disseminação da doença", fala Lilenbaum.

As amostras de sangue foram usadas para um amplo mapeamento dos rebanhos do estadoEssas medidas são três: manejo, vacinação do rebanho e administração de antibióticos. "Identificando o tipo de microrganismo mais freqüentes em nossos rebanhos, podemos adequar as vacinas, assim como o uso da medicação. E, claro, essas medidas também irão variar de acordo com as condições locais e com o número de animais doentes num mesmo rebanho", diz.

"O nosso estudo dará suporte laboratorial aos criadores fluminenses de caprinos e ovinos, atividade que tem enorme potencial no estado. O que tem um impacto econômico direto, já que os criadores que estão participando da pesquisa recebem orientação para o controle da leptospirose", fala o pesquisador. Ele explica que, por suas características geográficas, o Rio tem terras acidentadas, em sua grande maioria as propriedades no estado são de pequeno a médio porte. Os produtores de bovinos aqui no estado têm, em média, 50 cabeças. Se essas condições não são adequadas à criação de gado bovino, são propícias aos caprinos e ovinos, que se adaptam bem a essas características.

"Além disso, historicamente, o Rio tem tradição nesse tipo de criação, que vem crescendo no estado desde a fundação da Queijaria Escola de Nova Friburgo, há cerca de 20 anos. Hoje há núcleos fortes de rebanhos caprinos em diversos outros municípios, especialmente em Resende e Campos, se expandindo também para Minas e São Paulo. "Com isso, estamos também preparando veterinários especializados, principalmente em nivel de pós-graduação, para assistir os criadores. Também credenciamos junto ao CNPq, recentemente, um Grupo de Pesquisa em Pequenos Ruminantes que reúne os pesquisadores destas espécies que trabalham na UFF. Afinal, como estamos numa universidade, é importante que pesquisa e ensino sempre caminhem juntos", conclui.

Fonte: FAPERJ