Colocando em prática a estruturação das cadeias

Marina de Arruda Camargo Danés
Engenheira Agrônoma pela Esalq-USP e coordenadora do FarmPoint

Muito se discute sobre a desorganização dos setores de ovinos e caprinos no Brasil e a necessidade de estruturação entre os elos dessas cadeias produtivas para possibilitar um desenvolvimento sustentável.

Diversas são as sugestões para que as duas atividades adquiram importância econômica no cenário nacional e até internacional: aumento da escala de produção criando competitividade, constância de fornecimento e padronização; incentivo ao consumo dos produtos derivados dessas espécies; aumento de pesquisas voltadas a novas tecnologias de produção; políticas públicas de incentivo fiscal; entre outras.

Já foi discutido, em um artigo anterior, sobre as dificuldades de um determinado segmento do sistema produtivo para dar o primeiro passo na modernização de um processo, quando depende de outros segmentos para ter retorno neste investimento.

Com tantas sugestões e teorias, o próximo passo é colocá-las em prática. Para isso, é fundamental que haja uma plena comunicação entre todos os segmentos envolvidos, uma vez existe uma relação interdependente entre eles. Cada setor do sistema produtivo deve enxergar o próximo setor como cliente e desenvolver seus produtos de acordo com as necessidades de quem vai utilizá-lo.

Além disso, apesar de muitos problemas da ovinocaprinocultura serem comuns ao Brasil como um todo, os estados do país apresentam realidades muito diferentes uma das outras. Por isso, é necessário um levantamento regionalizado das demandas e, da mesma forma, as soluções para os problemas levantados devem ser adequadas para cada realidade.

Um outro aspecto relevante é que, em uma democracia, em que os governantes têm que lidar constantemente com número de solicitações e com necessidades em maior quantidade do que a disponibilidade de verbas, fatalmente os segmentos mais organizados e unidos terão prevalência para alocação de recursos em comparação àqueles cujos problemas são até mais preementes, mas incapazes de unificar seus pleitos junto a instituições representativas.

Uma iniciativa que atende bem esses três requisitos e tem funcionado com sucesso em alguns estados é a formação de uma câmara setorial, junto à secretaria estadual, dedicada a ovino e caprinocultura.

O objetivo de uma câmara setorial é levantar demandas da cadeia produtiva, propor soluções, encaminhá-las aos responsáveis e acompanhar a implantação dos projetos. Para isso, conta com representantes de todos os elos da cadeia produtiva, desde a indústria de insumos até o mercado consumidor.

A câmara setorial é também o órgão consultivo que representa uma cadeia junto ao governo, e encaminha as solicitações levantadas em suas reuniões. É por meio da câmara setorial que o governo dá abertura para as cadeias participarem das decisões públicas. De uma forma compilada, a câmara setorial visa convergir os interesses de toda a cadeia e conectá-los ao governo.

Para atingir esses objetivos, a câmara setorial promove encontros permanentes entre os representantes do setor para discussões e levantamentos dos pontos problemáticos. São também debatidos assuntos como leis, decretos, regulamentações, impostos, guerra fiscal, créditos e comercialização.

Além de encaminhar solicitações de criação ou alteração de políticas públicas que atendam as necessidades da cadeia, a câmara setorial pode requerer apoio das secretarias em atividades como fiscalização sanitária e levantamento de diagnósticos regionais.

Atualmente, temos alguns exemplos bem sucedidos, em estados onde a câmara setorial está tendo grande responsabilidade no desenvolvimento da cadeia. Em Minas Gerais, por exemplo, a câmara elaborou um "Plano Setorial para os setores da Caprinocultura e Ovinocultura de MG", no qual são sinalizados os pontos críticos e propostas soluções para estas cadeias produtivas.

A exemplo, dentro do conjunto de programas que compõem o Plano, no Projeto Leite Legal, encaminhado ao Secretário de Agricultura, a Câmara apresenta e defende uma proposta para viabilizar o beneficiamento do leite de cabra ou de ovelha nas produções com volume diário de até 100 litros, para comercialização em Minas Gerais.

No Mato Grosso do Sul, a atuação da Câmara Setorial tem sido muito relevante para a implantação da atividade no estado, uma vez que a região não é tradicional na ovinocaprinocultura. Além de participar e apoiar toda e qualquer iniciativa de fomento à ovinocaprinocultura, a câmara está investindo em difusão de conhecimento, programas de incentivo fiscal e ações no setor de sanidade, considerado um dos gargalos da atividade.

A câmara setorial no MS atua desde 2003 e está colhendo frutos de seu trabalho. Participou da inauguração, junto com a iniciativa privada, de um frigorífico específico para ovinos, com aproveitamento de todos os subprodutos dos abates e devidamente inspecionado pelo SIF.

Aprovou também, junto ao Ministério da Integração e o Governo do Estado, via Arranjo Produtivo, mais de R$ 1,7 milhão para aplicação em dois centros de pesquisa e difusão de tecnologia. A iniciativa privada, com isso, se encorajou e também está investindo no setor, inaugurando o Centro Tecnológico de Ovinocultura, que desenvolve trabalhos de pesquisa e extensão junto aos produtores.

Recentemente, o estado de São Paulo também apostou nesta iniciativa, se organizou e criou sua Câmara Setorial Especial de Caprinos e Ovinos. Representantes de todos os segmentos participaram das reuniões que antecederam sua criação.

Apesar do potencial desta iniciativa, o sucesso de uma câmara setorial depende fundamentalmente de priorizar os interesses comuns em relação aos interesses individuais. Levando-se em conta que vários elos com interesses conflitantes estão se reunindo, a câmara terá como responsabilidade negociar os temas divergentes que forem levantados e chegar em uma solução satisfatória para todos. As pessoas envolvidas nessa organização devem estar cientes de que estão dedicando seu trabalho para um resultado que, a longo prazo, beneficiará a todos.

Além disso, é indispensável o foco nos resultados práticos e diretos a partir dos pontos levantados pelos representantes da cadeia produtiva como gargalos para o desenvolvimento. Qualquer desvio de atenção para assuntos não importantes para o bem comum não mais justifica os motivos para a formação de uma câmara e nem os esforços dos que se dedicam a ela.

A câmara setorial é apenas um exemplo de uma mobilização visando colocar em prática a estruturação da cadeia produtiva. Outras iniciativas neste sentido podem ser aplicadas com muito sucesso, desde que haja o envolvimento e o comprometimento de todos os segmentos do setor.

Um outro exemplo de formato de trabalho que vem alcançando bons resultados é o Programa de Estruturação das Cadeias Produtivas de Ovinos e Caprinos do Paraná. Idealizado pelo governo do estado, representado pela Emater, Iapar, Deagro e Defis, e realizado em parceria com associações, cooperativas e segmento de consumo. Atualmente, o programa está investindo fortemente no incentivo ao consumo, por meio do Projeto Gourmet, que não só apresenta as vantagens da carne de cordeiros/cabritos, como ensina a prepará-la, e a melhor forma de oferecê-la ao consumidor.

De qualquer forma, as idéias têm que ser tiradas do papel e colocadas em prática. É muito importante o entendimento de que a sustentabilidade de uma atividade depende de organização e foco no consumidor final. Isso não é possível se cada segmento da cadeia optar por trabalhar sozinho, em busca apenas de seus próprios interesses.